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terça-feira, 15 de abril de 2025

Borgmann – consumo / tecnologia

Como a tecnologia influencia a vida contemporânea?

Filosofia Política
Temas: o consumo / a tecnologia
Filósofo: Borgmann, A. (1937 - 2023)
Obra: Technology and the Character of Contemporary Life (1984)

Biografia

Borgmann, A. (1937 – 2023), foi um filósofo americano nascido na Alemanha, especializado em filosofia da tecnologia.

Habilidade: ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

Are you lost in the world like me - Animation by Steve Cutts

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

A Technology and the Character of Contemporary Life (1984)

Uma forma de tornar disponíveis os produtos é torná-los descartáveis. Não é apenas desnecessário, mas impossível manter e reparar guardanapos de papel, latas de conserva, canetas esferográficas ou qualquer outro produto destinado a ser usado uma vez. Outro modo da disponibilidade é tornar desnecessário o cuidado dos produtos. Os talheres de aço inoxidável não requerem polimento, os pratos de plástico não precisam ser manipulados com cuidado. Em outros casos, a manutenção e a reparação tornam-se impossíveis por causa da sofisticação do produto. (...) os microcomputadores estão sendo usados cada vez mais porque vão se tornando “amigáveis”, isto é, fáceis de operar e compreender. Mas esse caráter “amigável” é precisamente o sinal do quanto se tem tornado grande o hiato entre a função acessível a todos e a maquinaria conhecida por quase ninguém. (p. 47).
O universo da propaganda é inteiramente um universo de produtos e consumo. Ela destila o aspecto frontal da tecnologia em forma ideal e assim apresenta o lado técnico e distintivo da nossa época. Deste modo, ela superou a arte como a apresentação arquetípica daquilo de que trata a nossa época. Na propaganda, a promessa da tecnologia é apresentada ao mesmo tempo em pureza e concretamente, e, portanto, da maneira mais atraente. Problemas e ameaças entram apenas como pano de fundo para destacar as benções da tecnologia. Assim, nos encontramos definidos arquetipicamente nas propagandas. Elas fornecem uma força estabilizadora e orientadora na complexidade da sociedade tecnológica ainda em desenvolvimento. (p. 55)
A palavra latina focus significa a lareira, o lugar do fogo (...) numa casa pré-tecnológica, a lareira constituía um centro de calor, de luz, de práticas diárias. Para os romanos, o focus era sagrado, o lugar onde residiam os deuses do lar. Na Grécia antiga, um bebê era verdadeiramente incorporado à família e à casa quando era transportado em torno da lareira e colocado diante dela. A união de um matrimônio romano era santificada na lareira. E ao menos nas épocas primitivas, os mortos eram enterrados junto à lareira. A família comia junto à lareira e fazia sacrifícios aos deuses do lar antes e depois da comida. A lareira sustentava, ordenava e centrava a casa e a família. (...) Hoje a lareira amiúde tem uma localização central na casa. Seu fogo é agora simbólico, dado que raramente fornece suficiente calor. Mas a irradiação, os sons e a fragrância do fogo vivo consumindo lenhas que são quebradas, amontoadas e sentidas nas suas veias têm retido a sua força. Não há mais imagens dos deuses ancestrais situadas junto ao fogo, mas há amiúde fotografias de entes queridos sobre a lareira, coisas preciosas da história da família, ou um relógio, medindo o tempo (p. 196).
Quando olhamos tecnologicamente para uma lareira pré-tecnológica, separamos da plenitude dos seus traços a função de fornecer calor como a única e finalmente significativa. Todos os outros traços são considerados então como parte da maquinaria e, estando sujeitos à lei da eficiência, tornam-se dependentes e indefinidamente mutáveis. A visão tecnológica de uma comida revela um agregado de sabores, texturas e caraterísticas nutritivas. Só elas retêm significação estável. (...) Analogamente, quando olhamos para uma árvore vemos certa quantidade de madeira ou fibra de celulose; os espinhos, os ramos, a cortiça e as raízes são resíduos. Uma rocha é cinco por cento de metal e o resto é lixo. Um animal é visto como uma máquina que produz uma quantidade de carne. Qualquer uma das suas funções que não serve para esse propósito é indiferente ou incômoda. (p. 192)

Dicionário Filosófico

Consumo – é o ato de utilizar um produto ou serviço para satisfazer uma necessidade pessoal ou de um grupo.

Tecnologia – é a aplicação de conhecimentos científicos e empíricos para criar ferramentas, métodos e técnicas que visam resolver problemas e melhorar a vida das pessoas.

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – De acordo com o autor, quando usamos os produtos (mercadorias), qual seria a melhor forma de torná-los disponíveis?
_____________________ (uma palavra)
2 – Quais são exemplos que Borgmann cita?
3 – No segundo parágrafo, qual é o universo da propaganda?
( ) produtos e consumo ( ) técnica e imagem ( ) satisfação do cliente
4 – O que a propaganda não mostra (somente como pano de fundo) sobre os produtos?
( ) os problemas e ameaças ( ) os benefícios e vantagens ( ) a felicidade e o bem-estar
5 – No terceiro parágrafo, encontramos o significado da palavra latina focus (local do fogo), qual é este significado?
( ) a lareira ( ) o fogão ( ) o incinerador
6 – Em sua casa o que há hoje neste local sagrado (para os romanos)?
( ) uma estante ( ) a televisão ( ) o home theater ( ) outro __________


7 – No último parágrafo o autor nos oferece os exemplos da comida, da árvore, da rocha e do animal. Que tipo de análise é esta?
( ) utilitarista ( ) universalista ( ) totalitarista ( ) abrangente
8 – Faça uma pesquisa em sua casa. Quantos relógios existem? Pesquise em todos os aparelhos que marcam as horas (micro-ondas, DVD, computador, smartphone, aparelho de som, etc).
9 – Qual é, em sua opinião, o exemplo de tecnologia que é a característica principal de nossa vida contemporânea (tendo em vista que o autor escreveu o texto em 1984 e já passamos quase meio século da publicação)?

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Locke – liberalismo político

Qual é a única fonte do poder político legitimo?

Filosofia Política
Tema: o liberalismo político
Filósofo: Locke (1632 – 1704)
Obra: Dois Tratados sobre o Governo Civil (1690)

Biografia: 

Locke (1632 – 1704) - foi um filósofo inglês conhecido como o "pai do liberalismo" e um dos principais teóricos do contrato social. Locke ficou conhecido como o fundador do empirismo, além de defender a liberdade e a tolerância religiosa.

Habilidade: ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

Liberalismo - John Locke - O Segundo Tratado Sobre o Governo

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

Segundo Tratado sobre o Governo Civil (1690)

Da sociedade política ou civil

O homem, nascendo, conforme provamos, com direito a perfeita liberdade e gozo incontrolado de todos os direitos e privilégios da lei da natureza, por igual a qualquer outro homem ou grupo de homens do mundo, tem por natureza, o poder não só de preservar a sua propriedade – isto é, a vida, a liberdade e os bens – contra os danos e ataques de outros homens, mas também de julgar e castigar as infrações dessa lei por outros conforme estiver persuadido da gravidade da ofensa e até mesmo com a morte nos crimes em que o horror do fato o exija, conforme a sua opinião. Contudo, como qualquer sociedade política não pode existir nem subsistir sem ter em si o poder de preservar a propriedade e, para isso, castigar as ofensas de todos os membros dessa sociedade, haverá sociedade política somente quando cada um dos membros renunciar ao próprio poder natural, passando-o às mãos da comunidade em todos os casos que não lhe impeçam de recorrer à proteção da lei por ela estabelecida. (...) Os que estão unidos em um corpo, tendo lei comum estabelecida e judicatura para a qual apelar, com autoridade para decidir controvérsias e punir os ofensores, estão em sociedade civil uns com os outros; mas os que não têm essa apelação em comum, quero dizer, sobre a Terra, ainda se encontram no estado de natureza, sendo cada um, onde não há outro, juiz para si e executor, o que constitui, conforme mostrei anteriormente, o estado perfeito de natureza.
(...)

Do começo das sociedades políticas

Sendo os homens, conforme acima dissemos, por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela. Qualquer número de homens pode fazê-lo, porque não prejudica a liberdade dos demais; ficam como estavam na liberdade do estado de natureza. Quando qualquer número de homens consentiu desse modo em construir uma comunidade ou governo, ficam, de fato, a ela incorporado e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e resolver por todos.

Dicionário Filosófico

Sociedade civil – refere-se ao conjunto das organizações voluntárias que servem como mecanismos de articulação de uma sociedade, por oposição às estruturas apoiadas pela força de um Estado.

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – O homem, nasce com direito à liberdade conforme todos os direitos e privilégios da lei da natureza, igual a qualquer outro homem ou grupo de homens do mundo. Portanto, ele tem o direito de:
( ) preservar a sua propriedade
( ) julgar e castigar as infrações dessa lei
( ) as duas alternativas estão corretas
2 – A sociedade política não pode existir nem subsistir sem ter em si o poder de preservar a propriedade e punir as infrações. Portanto, somente haverá sociedade política quando...
( ) cada um dos membros renunciar ao próprio poder natural, passando-o às mãos da comunidade em todos os casos que não lhe impeçam de recorrer à proteção da lei por ela estabelecida
( ) o rei renunciar ao próprio poder divino, passando-o às mãos dos súditos somente nos casos que não haja proteção da lei que ele mesmo instituiu
3 – De acordo com o texto, quando você está em sociedade civil?
( ) quando estou unido em um corpo, tendo lei comum estabelecida e sistema judiciário para a qual posso apelar, com autoridade para decidir controvérsias e punir os ofensores
( ) quando eu mesmo sou o juiz e executor das punições
4 – De acordo com o texto, quando você está em estado de natureza?
( ) quando estou unido em um corpo, tendo lei comum estabelecida e sistema judiciário para a qual posso apelar, com autoridade para decidir controvérsias e punir os ofensores
( ) quando eu mesmo sou o juiz e executor das punições
5 – Somos, por natureza, livres, iguais e independentes, portanto, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outras pessoas sem o(a) nosso(a):
( ) proibição ( ) censura ( ) impedimento ( ) consentimento
6 – Em um corpo político onde todas as pessoas em um determinado país é considerado como um único grupo...
( ) a minoria tem o direito de agir e resolver por todos
( ) a maioria tem o direito de agir e resolver por todos
7 – ENEM – 2014
Segundo a Teoria da Formação do Estado, de John Locke, para viver em sociedade, cada cidadão deve:
( ) manter a liberdade do estado de natureza, direito inalienável
( ) abrir mão de seus direitos individuais em prol do bem comum
( ) abdicar de sua propriedade e submeter-se ao poder do mais forte
( ) concordar com as normas estabelecidas para a vida em sociedade
( ) renunciar à posse jurídica de seus bens, mas não à sua independência

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Campanella - educação

Qual é o melhor método de ensino?

Filosofia Política
Tema: educação
Filósofo: Campanella (1568 – 1639)
Obra: A Cidade do Sol (1602)

Biografia

Campanella, T. (1568 — 1639) foi um filósofo renascentista italiano, poeta e teólogo dominicano.

Habilidade: ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

Ser e Ter

Entre os muros da escola

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

A Cidade do Sol (1602)

Na Cidade do Sol existe um único livro, que contém todo o saber e que a Sapiência coloca à disposição de todo o povo, como faziam os Pitagóricos. Efetivamente, a Sapiência fez com que o conteúdo do livro fosse pintado sobre todas as muralhas.
Sobre as muralhas externas do templo estão desenhadas as estrelas, tendo ao lado três versos. No lado interno do primeiro círculo de muralhas estão desenhadas mais figuras geométricas que Euclides e Arquimedes teriam traçado, cada uma com a expressão matemática correspondente. No lado externo está a carta geográfica de Terra inteira, com as subdivisões em Estados e regiões e com a descrição dos respectivos costumes, leis e religiões. Estão desenhados todos os alfabetos do mundo, colocados em comparação com o que é utilizado na Cidade do Sol.
No lado interno do segundo círculo de muralhas estão pedras preciosas, minerais e metais de todos os tipos, pintados ou incrustados na muralha, tendo ao lado dois versos com a descrição de cada um. No lado externo, estão pintados os mares, lagos e rios, além dos vinhos e essências de todos os tipos, trazendo a indicação de origem e as suas características. (...)
Existem numerosos especialistas nas matérias que educam as crianças. Estas, brincando livremente e sem constrangimento, acabam por conhecer a história do mundo antes dos 10 anos. (...)
A todos, desde criança, são ensinadas todas as matérias. Depois dos 3 anos de idade as crianças aprendem a língua andando próximo das muralhas, em fila de quatro. Quatro velhos servem-lhes de guia e atuam como mestres, fazendo-as também brincar e correr, para que cresçam robustas. As crianças estão sempre descalças e com a cabeça descoberta até a idade de 7 anos. Os velhos levam-nas às oficinas dos alfaiates, dos pintores, dos ourives, e assim por diante, e observam a quais ofícios se mostram mais inclinadas.
Depois dos 7 anos, todos os meninos recebem lições de ciências naturais. Existem quatro docentes dessa matéria, de modo que, em quatro horas, eles possam lecionar a todos os quatro grupos. E enquanto uns recebem lições de uma determinada matéria, os outros fazem exercícios físicos ou se dedicam a atividades úteis à coletividade. Em seguida, dedicam-se à matemática, à medicina e às outras ciências, discutindo e competindo uns com os outros. Na vida, cada um se dedicará ao ramo do saber em que se mostrou ser o melhor. Cada ciência ou profissão tem o seu chefe. Os meninos também vão ao campo aprender a criar os animais e a cultivar os cereais.

Dicionário Filosófico

Educação - é uma prática social que visa ao desenvolvimento do ser humano, de suas potencialidades, habilidades e competências.

Pedagogia - é a ciência que tem como objeto de estudo a educação, o processo de ensino e a aprendizagem. O sujeito é o ser humano como educando.

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 - Na Cidade do Sol existe um único livro. Como é apresentado este livro?
(   ) em folhas impressas              (   ) pintado nos muros               (   ) digitalizado
2 - Sobre o texto do segundo parágrafo faça as seguintes atividades:
a) desenhe saturno e escreva uma breve descrição
b) desenhe uma figura geométrica e escreva a expressão matemática de sua área.
c) insira uma imagem de carta geográfica da Terra.
d) escolha um idioma e desenhe as cinco primeiras letras de seu alfabeto.
3 - Sobre o texto do terceiro parágrafo faça as seguintes atividades:
a) escolha e insira uma imagem de uma pedra preciosa (ou mineral) e escreva uma breve descrição.
b) escolha e insira uma imagem de um rio e escreva o nome.
4 - Qual é o limite de idade que a criança tem que conhecer a história do mundo?
5 - Percebemos no texto de Campanella que a relação ensino e aprendizagem ocorre com as pessoas andando (em movimento). Como ficou conhecido o método que Aristóteles empregava para ensinar os jovens andando?
(   ) pesquisa               (   ) estatístico               (   ) hipotético               (   ) peripatético
6 - Faça a relação entre os termos do texto e o nome da disciplina atualmente.
(A) "As crianças tem que correr e brincar para crescerem robustas."
(B) "As crianças devem visitar as oficinas de alfaiates, pintores, ourives, etc., para desenvolver as suas vocações.
(   ) Educação Profissional
(   ) Educação Física
7 - "Depois dos 7 anos, todos os meninos recebem lições de ciências naturais". Quais são as três ciências da natureza presentes no currículo do Ensino Médio atualmente?
8 - "Na vida, cada um se dedicará ao ramo do saber em que se mostrou ser o melhor". Você já decidiu qual ramo do saber se dedicará no futuro? Se afirmativo, qual ramo e por qual motivo?
9 - "Os meninos também vão ao campo aprender a criar os animais e a cultivar os cereais." Faça a relação de acordo com atividade ou técnica moderna correspondente.
(A) "Os meninos vão ao campo aprender a criar os animais."
(B) "Os meninos vão ao campo aprender a cultivar os cereais."
(   ) pecuária
(   ) agricultura
10 - (VESTIBULAR) Uma das principais características do Renascimento foi o interesse dos filósofos renascentistas por imaginar uma sociedade perfeita. Entre os principais autores e obras da época podem-se citar Thomas Morus (A Utopia), Tommaso Campanella (A Cidade do Sol) e Francis Bacon (Nova Atlântida). Acerca do pensamento utópico e sua importância para o campo político, é CORRETO afirmar que:
( ) As utopias revelam um apurado nível de crítica social, a partir do destaque das imperfeições da vida cotidiana.
( ) As utopias são apenas devaneios de filósofos que sonham com sociedades impossíveis de existirem.
( ) As utopias são projeções sombrias de sociedades em decadência, onde um sujeito inerente tomará posse e a governará.
( )  As utopias, como explicou Freud, são apenas manifestações de nosso inconsciente onde imaginamos cidades futuristas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Sloterdijk - desoneração / mimo

O homem é um ser que necessita de cuidados especiais em seu local de habitação?

Filosofia Política
Temas: desoneração / mimo
Filósofo: Sloterdijk (1947-)
Obra: Palácio de Cristal (2006)

Biografia

Sloterdijk P. (1947-) é um filósofo alemão considerado um dos grandes renovadores da filosofia contemporânea. Além da filosofia, ele estudou filologia germânica e história.

Habilidade: ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

O mimo do poder de compra

O mimo da segurança política

O mimo da seguridade

O mimo da informação sem a experiência
(Trinity recebe via download instruções para pilotar um helicóptero)

O mimo das notabilidades

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

Palácio de Cristal (2006)
Mutações no Espaço dos Mimos

O conceito de mimo não implica naturalmente uma concessão à pedagogia conservadora, que não quer deixar de acreditar que o homem continua a ter necessidade de ser orientado por uma mão forte. O mimo, enquanto termo da antropologia histórica, designa os reflexos psicofísicos e semânticos do movimento de desoneração inerente desde início ao processo de civilização, mas que só pôde amadurecer e adquirir a sua plena visibilidade a partir do momento em que os bens deixaram radicalmente de ser raros. A luz destas suposições, podemos dar a compreender que, com a experiência do estado econômico e do estado providência moderno, se consumou um salto na história do mimo do homo sapiens - um salto que abriu a todos os que o deram com os outros um espaço imensamente alargado de possibilidades existenciais. A teoria do mimo orientada para a antropologia não tenciona repor em causa os efeitos de desoneração possibilitados pelo processo da civilização; o que deseja é otimizar a capacidade de navegação cultural dos sujeitos do mimo no seu ambiente arriscado e amplamente incompreendido, propiciando orientações conceituais para a existência em situações fortemente marcadas pela desoneração. (...)
Para resumir a nova situação com uma imagem arquitetônica: no interior do palácio de cristal pós-moderno, instalou-se um elevador do mimo que transporta os habitantes para os cinco vastos pisos do sistema de desoneração. Não se pode naturalmente supor que todos os passageiros têm a possibilidade de sair no piso de sua escolha e aproveitar as suas ofertas específicas. Mas, como em cada nível existe um número significativo de utilizadores, o conhecimento da existência do mimo possível noutros lugares derrama-se sobre todos os outros habitantes do palácio. Com o tempo, a maioria destes passa em revista todos os pisos, embora não façam todos as mesmas experiências. No primeiro piso, entram e saem os que conseguiram realizar em todo ou em parte o sonho de terem rendimentos sem prestações; o segundo é frequentado por um público de cidadãos descontraídos que usufruem da segurança política sem estarem eles próprios em condições de se baterem; no terceiro, encontram-se os que participam nas prestações imunitárias gerais sem disporem da sua própria história de sofrimento; no quarto, espalham-se os consumidores de um saber para cuja aquisição nenhuma experiência é necessária; no quinto, encontram-se os que, na sequência da publicitação imediata da sua pessoa, conseguiram tornar-se célebres sem terem de brandir uma prestação ou publicar uma obra.

Dicionário Filosófico

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – De acordo com Sloterdijk o conceito de “mimo” é o efeito do movimento de desoneração. O “mimo” adquiriu visibilidade a partir do momento em que:
( ) os bens deixaram radicalmente de ser raros
( ) os bens passaram radicalmente em ser raros
2 – O Estado moderno propiciou um salto na história do “mimo”. O que isto implicou para nós, de acordo com o texto?
( ) o aumento de nossas possibilidades existenciais
( ) a diminuição de nossas possibilidades existenciais
3 – A teoria do “mimo” desenvolvida por Sloterdijk visa propiciar:
( ) orientações conceituais para a existência em situações fortemente marcadas pela desoneração.
( ) orientações conceituais para a existência em situações fortemente marcadas pela oneração.
4 – Quando entramos no elevador do “mimo” no palácio de cristal (na pós modernidade) temos a possibilidade de descer em um dos cinco pisos do sistema de desoneração. Faça a relação entre os pisos e suas ofertas específicas.
(A) Primeiro piso
(B) Segundo piso
(C) Terceiro Piso
(D) Quarto Piso
(E) Quinto Piso
( ) Quando temos poder de compra para as necessidades básicas
( ) Quando temos segurança política das instituições
( ) Quando temos menos riscos de vida contra acidentes e doenças
( ) Quando temos acesso aos conteúdos de informação pelos meios de comunicação sem a experiência de vida
( ) Quando somos celebridades sem termos feito nada de notável

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Bauman - pós-modernidade

O que é a modernidade líquida?

Filosofia Política
Temas: pós-modernidade / insegurança / utopia
Filósofo: Bauman, Z. (1925 – 2017)
Obra: Tempos Líquidos (2007)

Biografia

Bauman (1925 - 2017) foi um sociólogo e filósofo polonês, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia.

Habilidade:
ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

BAUMAN - O que é Modernidade Líquida?

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

Tempos Líquidos (2007)

Entrando corajosamente no viveiro das incertezas

Pelo menos na parte "desenvolvida" do planeta, têm acontecido, ou pelo menos estão ocorrendo atualmente, algumas mudanças de curso seminais e intimamente interconectadas, as quais criam um ambiente novo e de fato sem precedentes para as atividades da vida individual, levantando uma série de desafios inéditos.
Em primeiro lugar, a passagem da fase "sólida" da modernidade para a "líquida" - ou seja, para uma condição em que as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las. (...)
Em segundo lugar, a separação e o iminente divórcio entre o poder e a política, a dupla da qual se esperava, desde o surgimento do Estado moderno e até muito recentemente, que compartilhasse as fundações do Estado-nação "até que a morte os separasse". Grande parte do poder de agir efetivamente, antes disponível ao Estado moderno, agora se afasta na direção de um espaço global (e, em muitos casos, extraterritorial) politicamente descontrolado, enquanto a política - a capacidade de decidir a direção e o objetivo de uma ação - é incapaz de operar efetivamente na dimensão planetária, já que permanece local. (...)
Em terceiro lugar, a retração ou redução gradual, embora consistente, da segurança comunal, endossada pelo Estado, contra o fracasso e o infortúnio individuais retira da ação coletiva grande parte da atração que esta exercia no passado e solapa os alicerces da solidariedade social. A "comunidade", como uma forma de se referir à totalidade da população que habita um território soberano do Estado, parece cada vez mais destituída de substância. (...)
Em quarto lugar, o colapso do pensamento, do planejamento e da ação a longo prazo, e o desaparecimento ou enfraquecimento das estruturas sociais nas quais estes poderiam ser traçados com antecedência, leva a um desmembramento da história política e das vidas individuais numa série de projetos e episódios de curto prazo que são, em princípio, infinitos e não combinam com os tipos de sequências aos quais conceitos como "desenvolvimento", "maturação", "carreira" ou "progresso" (todos sugerindo uma ordem de sucessão pré-ordenada) poderiam ser significativamente aplicados. (...)
Em quinto lugar, a responsabilidade em resolver os dilemas gerados por circunstâncias voláteis e constantemente instáveis é jogada sobre os ombros dos indivíduos - dos quais se espera que sejam "free-choosers" e suportem plenamente as consequências de suas escolhas. Os riscos envolvidos em cada escolha podem ser produzidos por forças que transcendem a compreensão e a capacidade de ação do indivíduo, mas é destino e dever deste pagar o seu preço, pois não há receitas endossadas que, caso fossem adequadamente aprendidas e diligentemente seguidas, poderiam permitir que erros fossem evitados, ou que pudessem ser, em caso de fracasso, consideradas responsáveis.

Dicionário Filosófico

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – De acordo com Bauman, estamos presenciando, neste início de século, mudanças interconectadas que trazem desafios inéditos. O primeiro desafio é a passagem da fase “sólida” da modernidade para a fase “líquida”. O que isto significa?
( ) significa que as organizações sociais não podem mais manter sua forma por muito tempo, pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las.
( ) significa que as organizações sociais podem manter sua forma por muito tempo, pois se compõem e se dissolvem muito lentamente através dos séculos.
2 – O segundo desafio é a separação entre o poder e a política. Qual é o efeito disso?
( ) O efeito é que o poder de agir passa a ser global sem controle político do objetivo da ação.
( ) O efeito é que o poder de agir passa a ser local com controle político do objetivo da ação.
3 – O terceiro desafio é a diminuição da segurança contra o fracasso individual retirando, assim, a força da ação coletiva e da solidariedade social. Neste caso o que acontece com o sentido de “comunidade”?
( ) fica destituída de substância
( ) fica instituída de ampliação
4 – O quarto desafio é o colapso do pensamento, do planejamento e da ação a longo prazo. Para onde este desafio nos leva?
( ) histórias e vidas individuais são realizadas a curto prazo
( ) histórias e vidas individuais são realizadas a longo prazo
5 – O quinto desafio coloca a responsabilidade para resolver dilemas no indivíduo e não em forças sociais. Quais são as consequências desta responsabilidade?
( ) os indivíduos devem suportar plenamente as consequências de suas escolhas
( ) o governo deve suportar plenamente as consequência de suas políticas
6 – Faça a relação entre os cinco desafios e seus respectivos exemplos.
(A) Primeiro desafio
(B) Segundo desafio
(C) Terceiro desafio
(D) Quarto desafio
(E) Quinto desafio
( ) a organização social chamada de família tradicional, normalmente formada pelo pai e mãe, unidos por matrimônio, e por um ou mais filhos, foi ampliada para laços de afetividade e não só sanguíneos.
( ) o terrorismo mundial realiza ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, pânico, e, na maioria dos casos, não possuem controle político institucional.
( ) os sindicatos têm perdido força para realizarem acordos coletivos, deixando para o empregado (colaborador) de forma individual a negociação nas relações trabalhistas.
( ) o personagem George Bailey do filme “A felicidade não se compra” planeja viajar pelo mundo, porém seu pai falece e ele tem que assumir a administração do empreendimento; quer cursar uma faculdade, porém os EUA entram em guerra, seu irmão é convocado e ele tem que continuar com os negócios da família.
( ) a promoção do indivíduo está em função de seus méritos, ou seja, sua aptidão, sua inteligências, suas virtudes, seu trabalho, sua competência e esforços.
7 – (VESTIBULAR) As formas de vida contemporânea, segundo o sociólogo polonês (Zygmunt Bauman), se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça um estado temporário e frágil das relações sociais e dos laços humanos. Essas mudanças de perspectivas aconteceram em um ritmo intenso e vertiginoso a partir da segunda metade do século XX. Com as tecnologias, o tempo se sobrepõe ao espaço. Podemos nos movimentar sem sair do lugar.
No trecho acima, Bauman, considerado um dos principais filósofos da contemporaneidade, define o tempo presente como:
a) modernidade absoluta
b) modernidade sólida
c) modernidade conservadora
d) modernidade líquida

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Fukuyama - democracia liberal

Na democracia liberal o desejo pelo reconhecimento continuará por se realizar ou irá se manifestar de uma forma inteiramente diferente?

Filosofia Política
Tema: democracia liberal
Filósofo: Fukuyama, Y. F. (1952)
Obra: O Fim da História e o Último Homem (1992)

Biografia

Fukuyama, Y. F. - 1952 é um filósofo e economista político nipo-estadunidense.

Habilidade: ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

Desigualdade LGBTQIA+
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-12/onu-lanca-cartilha-para-incluir-lgbt-no-mercado-de-trabalho

Desigualdade Sexista
https://santosbancarios.com.br/artigo/dupla-jornada-de-trabalho-mulheres-esgotadas-com-sindrome-de-burnout


Desigualdade Racial
https://noticias.ufsc.br/2020/04/ufsc-fara-colacao-de-grau-online-para-antecipar-formatura-do-curso-de-medicina/

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

O Fim da História e o Último Homem (1992)
No reino da liberdade

O problema do fim da história resume-se, assim, a uma questão sobre o futuro do "thymos" se a democracia liberal satisfaz adequadamente o desejo pelo reconhecimento, como diz Kojève, ou se esse desejo continuará por se realizar e, portanto, capaz de vir a manifestar-se de uma forma inteiramente diferente. A nossa anterior tentativa para construir uma história universal originou dois processos históricos paralelos: um guiado pela ciência natural moderna e pela lógica do desejo e o outro pela luta pelo reconhecimento.
Com o colapso do comunismo em todo o mundo deparamos agora uma situação extraordinária, em que os críticos de esquerda das sociedades liberais se encontram sem soluções radicais para ultrapassar as formas mais renitentes de desigualdade. Por ora, o desejo “anímico” de reconhecimento individual tem triunfado sobre o desejo “tímico” de igualdade. São poucos, atualmente, os críticos das sociedades liberais dispostos a advogar o abandono total dos princípios liberais, quer no domínio político, quer no econômico, em ordem a ultrapassar as desigualdades econômicas existentes. Os principais argumentos não se centram nos princípios da sociedade liberal, mas no ponto exato de equilíbrio entre a liberdade e a igualdade. Cada sociedade procura um equilíbrio entre a liberdade e a igualdade de forma diferente.
(...)
O desejo de um maior grau de democracia social não tem de vingar à custa da democracia formal e, portanto, não refuta, em si, a possibilidade de um fim da história. Não obstante o presente recuo sobre a velha questão econômica de classes por parte da esquerda, não é claro que exista um termo para novos e potencialmente mais radicais desafios à democracia liberal, decorrentes de outras formas de desigualdade. Formas de desigualdade como o racismo, o sexismo e a fobia aos homossexuais substituíram já, nas universidades americanas, o problema tradicional da esquerda a respeito das classes. Estabelecido o princípio da igualdade de reconhecimento da dignidade humana de cada pessoa - a satisfação da sua isothymia -, não há garantias de que as pessoas continuarão a aceitar a existência de formas residuais de desigualdade, sejam naturais, sejam necessárias.

Dicionário Filosófico

Democracia liberal - é uma forma de governo da qual se espera que o Estado se abstenha de interferir na esfera de direitos dos cidadãos e na economia - visto que esta seria dotada de mecanismos de autorregulação.

Economia de mercado - é um sistema econômico no qual as decisões relativas a investimento, produção e distribuição são guiadas pelos sinais de preços criados pela lei da oferta e da demanda.

Thymos - de acordo com Platão é a parte da alma pela qual estamos irados ou ficamos temperamentais. Ele também chama essa parte de 'alto espírito'. "Força de ânimo" é outra possível tradução.

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – Fukuyama diz que o problema do fim da história resume-se a uma questão sobre o futuro do "thymos" na democracia liberal. Qual é esta questão?
( ) Ou ela satisfaz o desejo pelo reconhecimento; ou este desejo se manifestará de uma forma inteiramente diferente.
( ) Ou ela satisfaz o desejo pela liberdade; ou este desejo se manifestará de uma forma inteiramente igualitária.
2 – Quais são os dois processos históricos paralelos gerados na tentativa de construir uma história universal?
3 – De acordo com Fukuyama qual nosso desejo tem triunfado quando lutamos pelo reconhecimento individual?
( ) o desejo “anímico” de reconhecimento individual
( ) o desejo “tímico” de igualdade
4 – Qual dos exemplos abaixo está de acordo com a resposta acima?
( ) a construção de rampa de acesso pela porta principal nos estabelecimentos para os que estão em cadeiras de rodas.
( ) as pessoas ajudarem os que estão em cadeiras de rodas no acesso aos estabelecimentos.
5 – “Cada sociedade procura um equilíbrio entre a liberdade e a igualdade de forma diferente”. No Brasil, como se dá o equilíbrio entre a liberdade em desejar entrar para uma faculdade e a igualdade nas condições de acesso?
6 – Qual é, segundo Fukuyama, o “fim da história”?
( ) o triunfo da democracia liberal
( ) o triunfo da democracia social
7 – O pensamento da esquerda sobre “classes econômicas” perdeu fôlego. Porém, novas formas de desigualdade impõem desafios para a democracia liberal. Quais são os três exemplos citados por Fukuyama no texto?
8 – Fukuyama argumenta que “estabelecido o princípio da igualdade de reconhecimento da dignidade humana de cada pessoa - a satisfação da sua "isothymia" -, não há garantias de que as pessoas continuarão a aceitar a existência de formas residuais de desigualdade, sejam naturais, sejam necessárias”.
a) Qual exemplo de desigualdade natural poderia ocorrer no futuro da sociedade e que as pessoas aceitariam?
( ) desigualdades nas capacidades e atributos para a ocupação de um cargo e não somente por indicação de pessoas influentes.
( ) desigualdades nas indicações de pessoas influentes para a ocupação de um cargo e não somente por capacidades e atributos.
b) Qual exemplo de desigualdade necessária poderia ocorrer no futuro da sociedade e que as pessoas aceitariam?
( ) diminuição da desigualdade através da alfabetização, educação, sistema previdenciário, mobilidade e segurança judiciária.
( ) aumento da desigualdade através da alfabetização, educação, sistema previdenciário, mobilidade e segurança judiciária.
9 – De acordo com o dicionário o que é a “democracia liberal”?
10 – De acordo com o dicionário o que é a “economia de mercado”?

terça-feira, 6 de julho de 2021

Berardi "Bifo" - semiocapitalismo

Como podemos nos desvencilhar do cadáver do capitalismo financeirizado?

Filosofia Política
Tema: semiocapitalismo
Filósofo: Berardi, F. (1949)
Obra: Asfixia (2020)

Biografia

Berardi, F. (1949) - Bifo, é um filósofo, escritor e agitador cultural italiano. Interessou-se sobre a relação entre o movimento social anticapitalista e a comunicação independente.

Habilidade:
ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

Semiocapitalismo

Bons Negócios

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

Asfixia (2020)

Este livro contém dois textos que escrevi em momentos diferentes da minha vida: o primeiro, Insurreição – poética e finanças, escrevi em 2011, durante a revolta mundial a que se deu o nome de Occupy, na qual uma rebelião generalizada contra a austeridade abriu uma fresta para um possível processo de liberação contra a ditadura financeirista. Escrevi o segundo, Respiração – caos e poesia, em 2018, quando as forças da escuridão obscureceram o horizonte do mundo, e quando a ditadura financeirista foi reforçada pelo ressurgimento do fascismo: o Brexit, o triunfo de Trump e a ascensão do etnonacionalismo ao redor do globo. Apesar das diferenças profundas entre esses cenários políticos, os dois livros se originam de uma mesma preocupação filosófica: questionar as possibilidades infinitas da linguagem e o sentido da poesia como forma de reativação do corpo erótico da sociedade.
(...)
Esses momentos de rebelião têm sido tão diferentes uns dos outros quanto seus contextos sociais e seus resultados políticos, mas compartilham uma mesma base: são a expressão da força emergente de trabalhadores cognitivos, ao mesmo tempo globalizados e precarizados. Cognitários precarizados deram ao processo global um caráter e um sentido comuns: a busca pela autonomia do conhecimento e da tecnologia com relação à dominação do capitalismo financeirizado.
(...)
O movimento Occupy, no entanto, não atingiu seus objetivos: a submissão do conhecimento às corporações não foi revertida, a agressão financeirista contra o bem-estar social – que atingiu seu ponto culminante no verão de 2015, na Grécia – não chegou ao fim. Desde então, o corpo social, incapaz de se desvencilhar da armadilha abstrata dos algoritmos financeiros, entrou em um longo processo de asfixia.
O segundo texto que você encontrará neste livro, Respiração, é todo voltado a essa asfixia. Em 2014, milhares de pessoas marcharam pelas ruas das cidades americanas gritando as palavras “não consigo respirar… não consigo respirar”. Era uma maneira de protestar contra os mata-leões aplicados nos negros pela polícia (um dos incontáveis atos racistas em solo americano), mas também uma forma de falar sobre a condição dos seres humanos no planeta asfixiante dos dias de hoje: poluição do ar, depredação financeira, aumento do empobrecimento, humilhação social.
(...)
Em Respiração, volto à metáfora da poesia como a única rota de fuga contra o sufocar. O poder de hoje se baseia em relações abstratas entre entidades numéricas. Enquanto a esfera das finanças é regida por algoritmos que conectam fractais de trabalho precarizado, a esfera da vida é invadida por fluxos de caos que paralisam o corpo social e abafam e sufocam a respiração. Não há escapatória política dessa armadilha: só a poesia, esse excesso de transações semióticas, pode reativar a respiração. Só a poesia nos guiará através do apocalipse que já está começando como um dos efeitos de décadas de absolutismo financeiro. Só a poesia aliviará o sofrimento das consciências do engenheiro e do poeta e reverterá o domínio da esfera financeira sobre a linguagem.

Dicionário Filosófico

Semiocapitalismo - trata-se de um capitalismo semiótico que faz com que os sinais proliferem, pois eles são tudo aquilo que é necessário para que as finanças se desenvolvam. (Paulo Ghiraldelli Jr.)

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – Faça a relação entre os dois textos escritos por “Bifo” e suas motivações históricas.
(A)Insurreição – poética e finanças (2011)
(B) Respiração – caos e poesia (2018)
( ) Brexit, Trump e etnonacionalismo
( ) Occupy e manifestações contra o capitalismo
2 – “Apesar das diferenças profundas entre esses cenários políticos, os dois textos se originam de uma mesma preocupação filosófica.” Qual?
3 – O que foi o Occupy Wall Street?
4 – O que foi o Brexit?
5 – “Esses momentos de rebelião têm sido tão diferentes uns dos outros quanto seus contextos sociais e seus resultados políticos, mas compartilham uma mesma base.” Qual é esta base?
6 – Pessoas comuns deram ao processo global um caráter e um sentido comuns. Qual foi este sentido?
7 – Ainda de acordo com o texto o movimento Occupy não atingiu seus objetivos. Quais são estes dois objetivos?
8 – . Em 2014, milhares de pessoas marcharam pelas ruas das cidades americanas gritando as palavras “não consigo respirar… não consigo respirar”. Além da referência da violência policial quais são as outras quatro condições asfixiante nos dias de hoje para os seres humanos?
9 – “O poder de hoje se baseia em relações abstratas entre entidades numéricas. Enquanto a esfera das finanças é regida por algoritmos que conectam fractais de trabalho precarizado, a esfera da vida é invadida por fluxos de caos que paralisam o corpo social e abafam e sufocam a respiração. Não há escapatória política dessa armadilha: só a poesia, esse excesso de transações semióticas, pode reativar a respiração.” Qual é a única solução proposta pelo autor contra este sufocamento para reativar a respiração social?
( ) a filosofia ( ) a revolução ( ) a poesia ( ) a tecnologia

terça-feira, 15 de junho de 2021

Byung Chul - controle social

A possibilidade infinita de informação e conexão nos tornam indivíduos livres?

Filosofia Política
Tema: controle social
Filósofo: Byung Chul (1959-)
Obra: Sociedade da Transparência (2012)

Biografia

Byung Chul (1959) –  é um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim. Autor de uma dezena de ensaios de críticas à sociedade do trabalho e à tecnologia.

Habilidade: ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

Black Mirror | White Bear

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

Sociedade da Transparência (2012)
9. Sociedade do Controle

A sociedade do controle atual apresenta uma estrutura panóptica bastante específica. Contrariamente à população carcerária, que não tem comunicação mútua, os habitantes digitais estão ligados em rede e têm uma intensiva comunicação entre si. O que assegura a transparência não é o isolamento, mas a hiper-comunicação. A especificidade do panóptico digital é sobretudo o fato de que seus frequentadores colaboram ativamente e de forma pessoal em sua edificação e manutenção, expondo-se e desnudando a si mesmos, expondo-se ao mercado panóptico. O expor pornográfico e o controle panóptico misturam-se entre si; o que alimenta o exibicionismo e o voyeurismo é a rede enquanto panóptico digital. Nesse sentido, a sociedade de controle chega a sua consumação ali onde o sujeito dessa sociedade não se desnuda por coação externa, mas a partir de uma necessidade gerada por si mesmo; onde, portanto, o medo de renunciar à sua esfera privada e íntima dá lugar à necessidade de se expor à vista sem qualquer pudor.
(...)
Hoje, o globo como um todo está se transformando em um único panóptico. Não existe um fora do panóptico; ele se torna total, não existindo muralha que possa separar o interior do exterior. Google® e redes sociais, que se apresentam como espaços de liberdade, estão adotando cada vez mais formas panópticas. Hoje, a supervisão não se dá como se admite usualmente, como agressão à liberdade. Ao contrário, as pessoas se expõem livremente ao olho panóptico. Elas colaboram intensamente na edificação do panóptico digital na medida em que se desnudam e se expõem. O presidiário do panóptico digital é ao mesmo tempo o agressor e a vítima, e nisso é que reside a dialética da liberdade, que se apresenta como controle.

Dicionário Filosófico

Controle social - É o conjunto de mecanismos de intervenção que cada sociedade ou grupo social possui e que são usados como forma de garantir a conformidade do comportamento dos indivíduos. Além disso, esses mesmos mecanismos servem como forma de intervenção diante das possíveis mudanças que porventura venham a se desenrolar no meio social. Nesse caso, as ferramentas de controle social induzem a conformidade do sujeito com a sua nova realidade, seja de forma positiva, seja de forma negativa. (Mundo Educação - UOL)

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – “A sociedade do controle atual apresenta uma estrutura panóptica bastante específica”. Pesquise e responda:
a) O que é um panóptico?
b) Insira a imagem de um panóptico.
2 – Qual é a diferença entre a população carcerária em um panóptico e a nossa?
( ) Nós estamos conectados em rede e, por isso, temos intensa comunicação e os encarcerados não.
( ) Os encarcerados estão conectados em rede e, por isso, têm intensa comunicação e nós não.
3 – O que assegura, então, a transparência em nossa sociedade?
( ) o hipercontrole          ( ) a hiper-comunicação          ( ) a hiper-vigilância
4 – Qual é a especificidade do panóptico digital?
( ) é isolar-se a si mesmo edificando e colaborando, assim, com o controle social
( ) é expor-se a si mesmo edificando e colaborando, assim, com o controle social
( ) é renunciar-se a si mesmo edificando e colaborando, assim, com o controle social
5 – A necessidade em se expor é o auge da sociedade do controle. Como isto é consumado?
( ) por uma coerção externa gerada pela esfera pública
( ) por uma necessidade gerada por si mesmo
6 – “Hoje, o globo como um todo está se transformando em um único panóptico. Não existe um fora do panóptico; ele se torna total, não existindo muralha que possa separar o interior do exterior”. Quais são os exemplos citados como as novas formas panópticas?
( ) as redes sociais e o google          ( ) os smartphones e os tablets
( ) as TVs e os jogos          ( ) os computadores e notebooks
7 – Somos os novos presidiários do panóptico digital e nele podemos ser, ao mesmo tempo (dialética):
( ) o agressor e a vítima          ( ) o carcereiro e o presidiário
( ) o policial e o cidadão          ( ) o herói e o vilão
8 – Nesta sociedade da transparência como se apresenta, em uma palavra, a nossa liberdade?
9 – De acordo com o dicionário, o que é o controle social?

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Geertz - cultura / antropologia

Como o homem se tornou um ser humano?

Filosofia política
Tema: a cultura / a antropologia
Filósofo: Geertz, C.. (1926 – 2006)
Obra: A Interpretação das Culturas (1973)

Biografia

Geertz, C. (1926 – 2006) - foi um antropólogo estadunidense, professor emérito da Universidade de Princeton. Seu trabalho se destacou pela análise da prática simbólica no fato antropológico.

Habilidade:
ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros

Filme "A Guerra do Fogo"

Habilidade: ler textos filosóficos de modo significativo

A Interpretação das Culturas (1993)
Capítulo II – O Impacto do Conceito de Cultura sobre o Conceito de Homem

Na perspectiva atual, a evolução do Homo sapiens — o homem moderno, surgiu definitivamente há cerca de quatro milhões de anos, com o aparecimento do Australopitecíneos — os assim chamados homens-macacos da África do Sul e Oriental — e culminou com a emergência do próprio sapiens, há apenas uns duzentos ou trezentos mil anos. Assim, como por menos formas elementares de atividade cultural ou, se desejam, protocultural (a feitura de ferramentas simples, a caça e assim por diante) parecem ter estado presentes entre alguns dos Australopitecíneos, há então uma superposição de mais de um milhão de anos entre o início da cultura e o aparecimento do homem como hoje o conhecemos. As datas precisas — que são apenas tentativas e que pesquisas futuras podem alterar para mais ou menos — não são importantes; o que é importante é ter havido uma superposição, e ela ter sido muito extensa. As fases finais (finais até hoje, pelo menos) da história filogenética do homem tiveram lugar na mesma era geológica grandiosa — a chamada Era Glacial — das fases iniciais da sua história cultural. (...)
Isso significa que a cultura, em vez de ser acrescentada, por assim dizer, a um animal acabado ou virtualmente acabado, foi um ingrediente, e um ingrediente essencial, na produção desse mesmo animal. O crescimento lento, constante, quase glacial da cultura através da Era Glacial alterou o equilíbrio das pressões seletivas para o Homo em evolução, de forma tal a desempenhar o principal papel orientador em sua evolução. O aperfeiçoamento das ferramentas, a adoção da caça organizada e as práticas de reunião, o início da verdadeira organização familiar, a descoberta do fogo e, o mais importante, embora seja ainda muito difícil identificá-la em detalhe, o apoio cada vez maior sobre os sistemas de símbolos significantes (linguagem, arte, mito, ritual) para a orientação, a comunicação e o autocontrole, tudo isso criou para o homem um novo ambiente ao qual ele foi obrigado a adaptar se. À medida que a cultura, num passo a passo infinitesimal, acumulou-se e se desenvolveu, foi concedida uma vantagem seletiva àqueles indivíduos da população mais capazes de levar vantagem — o caçador mais capaz, o colhedor mais persistente, o melhor ferramenteiro, o líder de mais recursos — até que o que havia sido o Australopiteco proto-humano, de cérebro pequeno, tornou-se o Homo sapiens, de cérebro grande, totalmente humano. Entre o padrão cultural, o corpo e o cérebro foi criado um sistema de realimentação (feedback) positiva, no qual cada um modelava o progresso do outro, um sistema no qual a interação entre o uso crescente das ferramentas, a mudança da anatomia da mão e a representação expandida do polegar no córtex é apenas um dos exemplos mais gráficos. Submetendo- se ao governo de programas simbolicamente mediados para a produção de artefatos, organizando a vida social ou expressando emoções, o homem determinou, embora inconscientemente, os estágios culminantes do seu próprio destino biológico. Literalmente, embora inadvertidamente, ele próprio se criou. Conforme mencionei, apesar de terem ocorrido algumas mudanças importantes na anatomia bruta do gênero Homo durante esse período de sua cristalização — na forma do crânio, na dentição, no tamanho do polegar, e assim por diante — as mudanças muito mais importantes e dramáticas foram as que tiveram lugar, evidentemente, no sistema nervoso central. Esse foi o período em que o cérebro humano, principalmente sua parte anterior, alcançou as pesadas proporções atuais. (...) O que separa, aparentemente, os verdadeiros homens dos proto-homens não é, aparentemente, a forma corpórea total, mas a complexidade da organização nervosa. O período superposto de mudança cultural e biológica parece ter consistido numa intensa concentração do desenvolvimento neural e talvez, associados a ela, o refinamento de comportamentos diversos — das mãos, da locomoção bípede, etc. — para as quais os fundamentos anatômicos básicos — ombros e pulsos móveis, um ílio alargado, etc. —já haviam sido antecipados.

Dicionário Filosófico

Antropologia cultural - é uma das quatro áreas da antropologia geral, junto com a antropologia biológica), a arqueologia e a linguística. A Antropologia Cultural estuda a diversidade cultural humana, tanto de grupos contemporâneos, como extintos.

Habilidade: elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo

1 – Pesquise e insira uma imagem do crânio de um “Australopitecíneo”.
2 – Pesquise e insira uma imagem do crânio de um “Homo Sapiens”.
3 - A principal característica do homem moderno, comparado aos seus ancestrais, é o cérebro bem desenvolvido. De fato, o aumento do volume craniano durante o processo evolutivo da espécie humana é notável. Faça a relação entre as colunas em referência ao volume do crânio.
(A) Australopitecíneo
(B) Homo Sapiens
(   ) 450 cm³
(   ) 1.350 cm³
4 – Geertz diz no texto que entre o Australopitecíneo e o Homo Sapiens houve uma superposição muito extensa no tempo. Faça a relação correta:
A) Australopitecíneo
B) Homo Sapiens
( ) Cultura (linguagem, arte, mito, ritual)
( ) Protocultura (ferramenta simples, caça)
5 – Com a Era Glacial tivemos, para os homens, o fim de sua história filogenética e o início de sua história cultural. De acordo com o texto a cultura foi o ingrediente deste processo que aconteceu de forma:
( ) lenta, constante, gradual, essencial na formação do homem
( ) rápida, inconstante, abrupta, acidental na formação do homem
6 – Das alternativas abaixo assinale a única que NÃO faz parte do rol do papel cultural como orientador na evolução humana em seu início:
( ) o aperfeiçoamento das ferramentas;
( ) a caça organizada;
( ) o início da organização familiar;
( ) a descoberta do fogo;
( ) o sistemas de símbolos (linguagem, arte, ritual)
( ) o uso da pólvora
7 – “À medida que a cultura, num passo a passo infinitesimal, acumulou-se e se desenvolveu, foi concedida uma vantagem seletiva àqueles indivíduos da população mais capazes de levar vantagem — o caçador mais capaz, o colhedor mais persistente, o melhor ferramenteiro, o líder de mais recursos.” Este trecho evidencia qual moderno conceito científico?
( ) O Criacionismo ( ) O Evolucionismo ( ) A Panspermia
8 – De acordo com Geertz ocorreram “algumas mudanças importantes na anatomia bruta do gênero Homo durante esse período de sua cristalização — na forma do crânio, na dentição, no tamanho do polegar, e assim por diante”. Porém, as mudanças muito mais importantes e dramáticas foram as que tiveram lugar...
( ) no sistema nervoso central ( ) no sistema digestivo ( ) no sistema sanguíneo
9 – Portanto, “o que separa, aparentemente, os verdadeiros homens dos proto-homens não é, aparentemente, a forma corpórea total, mas...
( ) a complexidade da organização nervosa
( ) a complexidade da organização digestiva
( ) a complexidade da organização sanguínea
10 – O desenvolvimento do homem ocorrido de acordo com as respostas das questões 7 e 8 acima, trouxe como efeito:
( ) o refinamento de comportamentos diversas
( ) o deterioramento de comportamentos diversos
( ) o agravamento de comportamentos diversos
( ) o embrutecimento de comportamentos diversos
11 – Clique no hiperlink para atividade extra sobre o filme “A Guerra do Fogo”.